quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Nada além!

Estamos sós. Rotineiramente absorvidos pela fumaça, pela mistura envolvente do cinza com as cores produzidas para hipnotizar nossa mente. Como que inebriados por àquela flauta mágica, que nos seduz tal qual o canto da sereia, somos levados e nos entregamos aos imperativos que se repetem e se repetem aos nossos olhos e ouvidos.
Estamos sós: invariavelmente mergulhados até ao último fio de cabelo no movimento incessante e frio das ruas. Fazemos parte deste movimento. Não paramos, não temos tempo. A cidade, não se compadece com a nossa dor. Na cidade não existe ninguém, não existe o indivíduo, apenas o movimento. Você é um passageiro, você é um paciente, um cliente, um devedor, um alvo.
Luzes, cores, fumaças, buzinas, sirenes, gritos e lá estão eles: os imperativos. Compre, possua, sinta... reze para se salvar. Não existe compaixão, não existe solidariedade. Se você compra, se você possui, se você dirige, você É. Assim você “existe”.
Existência que se torna um conjunto de necessidades que jamais podem ser satisfeitas. As necessidades, elas mesmas, produzem novas cobiças, que novamente não podem ser satisfeitas. Assim, como diria Schopenhauer é impossível preencher o abismo sem fundo que é o coração do homem.
Homem que não quer ser livre, e deseja inelutavelmente se amarrar, se prender. Não há possibilidade de liberdade, quando muito ela se torna um “caminhozinho dentro de uma grande prisão.” Ele não se dá conta de que produz sua própria realidade, e é responsável por suas escolhas. Aceitar isso é quase impossível, pois saber que os pesos, sofrimentos, angústias cabem somente a ele, não é fácil Assumir o controle e aceitar as rédeas da sua própria vida é um feito Homérico. É mais simples, é mais cremoso colocar a culpa em Deus, no Diabo ou no Destino. Mas é preciso se lembrar que Eles não existem (são “obra e loucura do homem”). O que existe é o homem humano, demasiado humano, dono da sua travessia. Mas no fim a vida é isso, ter o que não quer, possuir o que não precisa, desejar o que não se tem, ir ao médico e praticar exercícios para morrer saudável.

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